ARNALDO JABOR - O Estado de S.Paulo- Bienal SP
Ao apagar das luzes, fui ver a Bienal. Quase não escrevo sobre ela, mas não aguentei, apesar de não ser crítico de arte. A sensação dominante que tive foi de ruínas ou de despejos da civilização. Saí triste. Os trabalhos repetem os mesmos códigos e repertórios: terra arrasada, materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma vergonha de ser "arte", vergonha de provocar sentimentos de prazer. A fruição poética é impedida, como se o prazer fosse uma coisa reacionária, "alienada", ignorando o "mal do mundo", que tem de ser esfregado na cara do espectador para que ele não esqueça o horror que nos assola.
Há um propósito de evitar qualquer transcendência artística. Um crítico escreveu: "O paradigma romântico foi desmantelado no século 20, porque apresenta a arte como algo universal, acima da realidade social e política."
Ou seja, a razão maior da arte, que é justamente esse mistério que aponta para "as coisas vagas" (como escreveu Paul Valéry) sem as quais não há reflexão poética ou filosófica, foi jogada fora, em nome de uma racionalização criada para substituir nossa impotência política real.
Fui andando pelo pavilhão maravilhoso do Niemeyer, pensando que o edifício "modernista" era superior a qualquer panfletinho ali exposto.
Pensei que o império da sordidez mercantil, a ignorância no poder, o fanatismo do terror, a boçalidade cultural, toda a tempestade de bosta que nos ronda está muito além do alcance crítico de qualquer "denúncia" artística. Não adianta mais "chocar" ou "conscientizar" ninguém. Nada que haja na Bienal nos choca mais que homens-bomba explodindo discotecas ou a fome na África ou a lama das favelas e periferias. Nada. Os gestos enraivecidos da antiarte nem arranham a pele do mundo. Nesta Bienal vi um parque temático de deprimidos, um muro de lamentações inúteis - a melancolia como "denúncia" de uma vida sem solução, quando a grande crítica ao Ocidente é feita pelos terroristas islâmicos. A infeliz sentença de Stockhausen chamando o 11 de Setembro de "obra de arte" tem, sim, um bruto fundo de verdade. Nada pode explicar ou evitar aquele horror. Nunca imaginávamos que o século 21 seria parecido com o século 7.º, quando Maomé se declarou o único profeta.
Intelectuais e artistas vivem em pânico, pois o tempo de sínteses se extinguiu. Os acontecimentos estão incompreensíveis e, no entanto, óbvios demais. Claro que os artistas contemporâneos não podem ignorar o horror do mundo e têm de acusar o golpe. Sim, mas mesmo em tempos terríveis, há que se buscar alguma transcendência, esperança e vitalidade.
Tropeçando em perigosas "instalações", pensei que a morte da "aura" da arte é menos aceita do que pensávamos. Hoje, muitos artistas se veem como ex-profetas abandonados e passaram a usar a luz da "aura" como um halo, como uma coroa de espinhos para sua solidão. O artista quer virar obra de arte. E tudo faz para esquecer seu abandono, mesmo que seja expor seus excrementos numa latinha. E vemos que ele não abriu mão da representação, mas cultiva-a ao avesso da beleza, como uma doença favorita. Ele é a representação, ele é a paisagem.
Acho que nesta desistência da arte transcendental há um complexo de inferioridade diante da tecnociência, que está avassalando nossas vidas. Nietzsche não concordaria: "A arte é mais poderosa que a Ciência, pois ela quer a vida, enquanto o objetivo final do conhecimento é o aniquilamento." Nietzsche escreveu isso no fim do século passado, querendo dizer que, por trás da busca científica e racional da verdade, mora o desejo da morte, de esgotamento da vida, por uma letal explicação de tudo.
Claro que não tenho nível para aprofundar este tema; mas temos hoje esta metástase digital hipertecnológica ao lado de um indigente, tuberculoso, desempenho artístico do mundo. Temos de um lado o mercantilismo escroto de Hollywood, dos teatrões, das galerias chiques ou dos best-sellers. Do outro, a solidão melancólica das Documentas, os bodões negros dos guetos da revolta "oficial".
Sem dúvida, a grandeza da arte contemporânea é de se misturar à vida, sem suporte, mas sem negá-la de fora, atacando-a com rancor por sua falta de sentido claro. Nisso, o WikiLeaks mata a pau.
Movidos pela ideia socrática de que a arte tem de ser subordinada à Razão, os artistas caíram numa denúncia melancólica das impossibilidades. Não há futuro para esta ideia de arte, seja ela digital, mercantil, iluminista ou o cacete a quatro. A celebração dionisíaca do existir não pode ser considerada frescura ou alienação.
Prevaleceu a vertente "triste" do modernismo, a vertente "conceitual" que joga sobre o "mal do mundo" apenas uma ideologia nevoenta de condenações sem nome, apenas uma arte enojada contra o mal-estar da civilização.
Por que a melancolia seria mais profunda que a alegria? Como explicar Fred Astaire, Busby Berkeley, Cantando na Chuva, a arte pop, o jazz? Depois do pop, será que uma "aids conceitual" não atacou tudo, depauperando a luta? Será que não se esgotou a denúncia do feio pelo "mais feio", que odeia a vida real, por adesão a um impossível finalismo? O "novo" não poderia ser um "belo" que denuncia, com sua luz, a injusta vida?
Precisamos de arte, como uvas e frutos e danças e como um coro de Silenos, de Dionísios, pois a ciência e a razão estão querendo chegar até os ossos da "essência". A arte é a ilusão aceita, a clareza feliz de que a aparência é o lugar do humano e que só nos resta essa hipótese de felicidade num planeta gelado. Não a arte-espetáculo, mercadoria de ver, mas a arte como ritual de embelezamento da vida. Nietzsche: "A ilusão é a essência em que o homem se criou."
Lembrei-me então de uma frase de Stravinski: "A obra de arte deve ser exaltante." E uma de Artaud: "A arte não é a imitação da vida; a vida é que é a imitação de "algo" transcendental com que a arte nos põe em contato." Por isso, não gostei da Bienal.
Not so wrong, not so right. Apenas meros espasmos de tecidos mortos? Curioso notar, o autor não cita um único pensador desta época, suas modulações são todas regidas por novecentistas transcendentais que em alguma medida nos levaram a nosso estado presente, de toda sorte sinto um reclame sincero, uma maneira legítima de segurar seu mundo que ele vê desabado. Stockhausen constatou corretamente, nossa espetacularidade é espetacular, diria Millor, é nossa forma de fazer cultura falando do mundo nosso de cada dia, vestidos como chineses de Mao com brin azul, economia socialista e senso mental capitalista, e vice versa, a ocasião faz o ladrão de nós mesmos, daí a melancolia, a febre, a metástase cultural, a biologia uniformiza seus fenômenos reativos, a vida é assim, duas cabeças tendem a um cérebro, eu disse isso num trabalho anônimo que jazz em alguma coleção periférica, minha vocação dinossáurica num tempo em que realmente o artista se tornou a obra, isso não é pra gente velha como Jabor, nem eu que sou mais novo mas entalado entre duas noções, por isso digo, not so wrong, not so right, me resta o alento de saber que em tempos escuros se formou gente como Caravaggio que não gosto, mas também Rembrandt, eu quero ser Rembrandt quando crescer, há uma luz naquelas sombras, mas há também em Olafur Eliasson, not so wrong, not so right. On the Wall. Val
23 dezembro, 2010
11 dezembro, 2010
05 dezembro, 2010
28 novembro, 2010
22 novembro, 2010
O Artista Baiano e Sua Indigência Cultural
Produzir arte para mim implica em revertir-se, contaminar-se de reflexões que busquem responder através das diversas categorias de conhecimento. Com o mundo globalizado, as noções de cultura engendram outro tipo de relação pautada na complexidade que o mundo nos emite na forma de seus trânsitos multiculturais, na diversidade dos muitos fluxos relacionais a que estamos submetidos. Há no mínimo uma confrontação de significados que paira no ar mesmo se falamos de coordenadas bem específicas como as da Bahia.
Ocorre que a grande e estarrecedora maioria dos artistas estão preocupados com politícas culturais, gestões administrativas, partidarismos aclamados e criticados com base numa forma de pensamento e discursos anacrônicos e construídos sob a égide de um primarismo que chega a me exasperar. A única coisa tangível que se enxerga é uma paixão modelada por uma ignorância que começa no assassinato contínuo da língua, e emissões de um pensamento de tal primarismo que sinto vergonha do que tenho lido. Os artistas baianos estão nus, e são solitários precisamente pela nudez que implica o nível de seus conhecimentos, a forma como tratam cultura e se arvoram a querer mudá-la sem antes fazer um exame lúcido de suas limitações. Ficam pendurados e dependentes no opium do FACEBOOK por suas carências de representatividade, e só conseguem encontrar culpas e imperfeições no outro, ou outros. Há um mundo a ser explorado, uma árdua e dífícil tarefa que passa pelo indispensável exercício de aquisições de saber. Quixotes movidos a intuições perdidas no tempo e nos espaços de sua doentia ignorância eivada pela vaidade insistente que ser artista é apenas produzir imagens inócuas baseadas em seus desejos básicos de existir. A disseminação da idéia de que há culpas em todos os lugares, mas nenhum movimento que caracterize um exame de consciência de como cada um tem operado: a pergunta diante do espelho, que merda sou eu, que merda tenho feito? Que pertinência meus choros e quixumes pode representar como contributo para aquilo que desejo? Nennhum, nenhuma. O artista baiano é uma piada de mau gosto, e aqueles que se elevam acima das generalidades foscas, são acusados de apaniguados, ou mafiosos. Puta que o pariu, vão estudar cambada de ociosos mentais, depois venham fazer política, reinvindicar algo que seja preciso, voces não consomem um parágrafo de história da arte por semana e querem fazer história, jamais farão desta formaa, serão esquecidos ao apagar de cada sessão no Facebook.
20 novembro, 2010
15 novembro, 2010
14 novembro, 2010
23 outubro, 2010
21 outubro, 2010
28 setembro, 2010
27 setembro, 2010
Eu lido com a arte e sua história. Há um campo gravitacional que me atrai a seus múltiplos significados, procuro usá-los não para dá-los novos sentidos, mas para estender minha compreensão dos novos sentidos que temos no mundo atual. Aqui nos defrontamos com um problema que acomete a arte contemporânea e é possível que esteja aí base de sua crise. Aliás, é difícil pensar a arte de hoje sem o componente de crise. Gosto parcialmente de uma idéia de George Steinner, que estabelece a distinção entre criação e invenção. A idéia não é simples, e toma como base a presença da obra de Marcel Duchamp. Mas antes, ele associa a idéia de criação ao divino; com a presença de Duchamp ocorre a dessacralização da arte que passa a ser operada como invenção, distante da historicidade, da magia, do talento, do autoral. O próprio Duchamp chamou a atenção para certos comedimentos que um artista deveria ter ao usar, por exemplo, o recurso do Ready Made. Penso que ele intuía o caos que a própria invenção poderia resultar. O mundo se tornou demasiadamente complexo, e extremamente visual, não sei se ele precisa de novos sentidos, ou como é usual dizer, ressemantizações. Parece paradoxal, sou um artista com a reputação de contemporâneo, no entanto refuto certos métodos que para mim desumanizam a arte, ou a torna vítima de ansiedades dos próprios artistas e todo o staff em que ela é hoje articulada como objeto de consumo. Mas é preciso afirmar que não desprezo nenhum método, minha implicação diz respeito a certa “academização” que a arte contemporânea empunha.
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